O Palheiro da Malta

2006/03/28

Cartita P'rá Englaterra (escrita em Alentejanês)

Caro compadre Jaquim Patas D’Ôriço espero que vomecê e a cumádre tejam beim, ê cá aqui vô indo ós trambolhões de ladêra acima. Continuamos a ver tudo cada vez más prêto neste canto cagado a ca gente chama Portugáli, vocês é que tã beim aí na englaterra.
Onte fui meter os papéis daquela merda do IRS naquela casa que dá arrepios até ó Belmiro Azedo, as Finanças. Prégunti porqu’é cantigamente eram 3 papéis e agora sã 6. Arresponderam quê nã tinha nada a ver com isso. Era pagar os papéis e calar. Tive pra lhe preguntári si eram alguma coisa ó mê irmão más velho qué o que tem más mau fêtio, o Amândio Montanelas, mas cali-me. Ó despois logo prégunto ao Senhor Padre Eduardo Comêlas, home de grande coltura. Bom, lá na terra ninguém o grama a nã ser eu, o home já é pai de 13 moços mal aperfilhados pelos maridos de testa enfêtáda. Ê sô soltêrão como o compádri sabe muito beim, e isso nã m’incomoda, mas parece que um sobrinho meu não mé nada. Dizem co mê irmão nã teve nada a ver com o moço. Agora é que têim, dá-lhe de comer e o padre tá todo sastefêto da sua rica vida. Este padre galego tamêm saíu uma boa peça. Tá cá na terra há 20 anos e já tem moços com 18. O engraçado é ca moçada trató por padrinho. É uma barrigada de rir quê apanho. S’aquela sacrestia falasse tinha mais pra contar cós menistros que são contadores d’estórias de primêra apanha. Os homes da aldeia já fizeram um abáxo-assinado pró Bispo o meter na rua, mas o raio do Bispo falou naquela estória do multiplicai-vos e crescei e o padre lá continua a fazer môços a torto e a drêto. Mas já tá tudo combinado, na colhêta em sendo Verão, já tem uma carrada de porradas prometida. O maldito nunca mais nos favorece com a sua ausência (estas palavras sã do nosso compádri Pinto)! Talvez por isso ele vá ser operado em Julho e só volta em Dezembro, deve tár desconfiado. Azares co povo sempre teim. Bom, agora vô apanhar a camineta senão ela nã m’ apanha a mim.
A tu mãe tá más rija cá mantêga em Agosto. Um abraço qu’ela te manda. O padre tem pena ca tu mulher nã teja cá, diz qu’ela é uma boa pessoa. Tal é um velhaco destes.
Que nunca sejas desenfeliz sã os desejos do tê sempre compádri, Manel Montanelas.
O Ti Ambrósio da taberna do largo manda-te pedir pra tu veres se arranjas aí na englaterra um papagaio surdo que nem uma porta. O bicho tem que ser mêmo surdo senão já sabes o ca malta lh’ensina e a mulher dele a Zefa Cabrêra partia-lhe logo os cornos (quê até me parece qu’ele nã os teim).
Fiquem munto beim se puderem, senão puderem fiquem como quêram.
Adeus e até quê m’apeteça escrever’ ótra veiz.

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